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Biblioteca

Apresentação

Sala de leitura Bento Nascimento e Biblioteca Funarte

A Casa da Cultura Dide Brandão conta com um espaço para leitura e pesquisa, é a biblioteca Funarte e a sala de leitura Bento Nascimento, que foi um grande poeta e entusiasta da cultura na cidade de Itajaí. Nos deixou cedo, mas suas histórias, seu humor e seus poemas ainda estão vivos naqueles que o conheceram pessoalmente, ou através da sua obra.

Mas Bento deixou legados, entre eles o livro Celacanto que produziu junto com Antônio Carlos Floriano.

Como nasce um Celacanto
A arte pela arte

No início da década de oitenta, Antonio Carlos Floriano cursava Economia em uma faculdade de Itajaí. Caminhando pelos corredores da FEPEVI (atual UNIVALI), reparou que havia grandes murais de papel pardo nas paredes com poemas assinados por um tal de Bento Nascimento. Havia de outros estudantes do campus também, mas os de Bento lhe fisgaram e fizeram com que ele procurasse o dono de palavras tão livres e que tinham o que Carlos chamaria de “uma pegada pop”.

Naquela época, o horizonte de Itajaí era mais limitado do que se pode imaginar. A cidade acabava no bairro São João, às margens do rio Itajaí-Mirim. A juventude celebrava todo o seu ápice e desvario em bailes, ao som de bandas locais (o termo ‘boate’, tão comum hoje em dia, designava puteiro). Bailes como os realizados nas Sociedades Tiradentes, Guarani, Vila, Barroso, Itaipava, União. Mas foi em um baile na Sociedade Fazenda que, de conhecido em conhecido, Floriano conseguiu apresentar-se ao estudante de Letras e revelar-se admirador da sensibilidade que ele deixava entre as palavras. E assim uma amizade começou a ser escrita.

Bento, através das peças criadas por Toni Cunha (recitais poéticos como “A Última noite Punk” e “Quarentena – Os quarenta melhores dias de nossas vidas”), já estava consolidando seu nome na cultura local, engrandecido pela acessibilidade e carpe diem de sua personalidade. A idéia de fazer um livro nasce de Antonio Carlos, que trabalhava numa empresa, Inebrasa, inclusive com Vânia Campos (responsável pelo descobrimento e divulgação da obra de Bento – eram colegas de classe); Vânia e Floriano elaboravam um jornal, um informativo. Quem fazia as prensagens desse informativo era um homem chamado Toninho, na gráfica Elbert, em Florianópolis. Certo dia, Antonio e Bento foram até lá, e Toninho mostrou para eles um livro que editou sobre Anita Garibaldi. Nasce o brilho nos olhos dos dois poetas e a possibilidade de fazer o mesmo.

Bento um dia pergunta a Floriano se ele sabe o que é um “celacanto”. Antonio sabia, e acaba por ser o nome do livro. O amigo e ceramista Edmundo Campos fez o peixe, do qual foi tirada uma foto (no meio da rua, até jogaram um pouco de areia em cima para dar uma perspectiva granulada) para a capa do livro.

O intuito de publicação era puramente presente, arte pela arte. Foram feitos dois mil exemplares, o que nem passava pela cabeça dos escritores de primeira viagem ser um número absurdo para um livro de poesia – e de autores vivos. A pagar, de um livro que, em geral, seria dado. A cidade não tinha lei de incentivo, e qualquer produção artística era feita com recursos próprios, pedindo coisas emprestadas.

Para a publicação de Celacanto foi feito rifa de uma bicicleta (conseguiram com Silvio Sandri), a venda de camisetas com somente o título do livro ou “Celacanto é poesia” e também adesivos, que Bento vendia em festas locais como a Marejada (nos quais vinha um poema e a nota de rodapé: “adesivo para publicação de livro”). O lançamento na Casa da Cultura Dide Brandão, em 1989, com recital do Toni Cunha e a trupe “Camaleão Arte Expressão”, foi um sucesso. O livro era uma celebração dentro da cidade-adversidade. Houve lançamento até em Florianópolis.

Bento e Floriano tinham uma atração por autores semelhantes como Drummond, Gullar e Bandeira. A ebulição do realismo-fantástico também reverbera em seus escritos, e vem daí, da imagem de José Arcádio Buendía amarrado na árvore de Cem Anos de Solidão, que Bento fala num poema o “desejo de virar paisagem”. Mas também havia divergências: se Floriano amava o rigor estético de João Cabral de Melo Neto, Bento se entregava às doçuras e descontroles de Quintana, Rimbaud, Pessoa e Florbela Espanca.

Metade dos poemas de Floriano para Celacanto foram escritos em uma tarde, no terminal rodoviário de Florianópolis. Sempre escreveu muito em terminais, mesmo quando foi morar no Japão, esperando trens. Já Bento era o poeta do papel solto, do guardanapo nos bares; mas compilava também muitos versos em seus cadernos, onde escrevia mais de um poema por dia. Às vezes esses cadernos ficavam na casa de amigos, e quando os visitava, continuava preenchendo. Era uma relação tão livre com poesia que um desses cadernos, por exemplo, está hoje em algum lugar da Argentina, por alguém que mal faz idéia possuir uma relíquia: Edmundo Campos, que fez o peixe em cerâmica para a capa do livro, deu seu caderno (na época Bento ainda estava vivo) para um argentino chamado Jorge Rosenberg, professor de literatura em Santiago del Estero.

Antonio Carlos Floriano, desde então, publicou vários outros livros, inclusive Cadernos do Japão (pela Massao Ohno) e uma reedição de Celacanto – 20 anos. Bento faleceu em 1993, num terrível acidente envolvendo uma caminhonete e um ônibus a poucos metros de casa, mas já estava consolidando em um caderno a idéia de um novo livro: “Saudades de Ontem – o que pode ficar na saudade”.

Texto: Enzo Potel

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